Biografia

Victorina Sagboni fez parte da história do da arte contemporânea paranaense e sua importância se deve ao uso de duas linguagens, as artes plásticas e a literatura. Também contribuiu com o ensino da arte, dirigindo o CJAP durante dez anos. O interesse em apresentar as novas gerações esta artista e apresentar aos jovens educadores esta personalidade, bem como, reavivar na memória de alguns a imagem das obras de Victorina, fez com que a pesquisadora partisse para a pesquisa de campo, pois referências bibliográficas sobre o tema são escassas.

A partir da busca inicial foram encontrados no acervo documental do Museu de Arte Contemporânea, diversos recortes de jornal informando sobre aberturas de exposições de Victorina, publicações de suas poesias entre fotos e notícias sobre sua participação e interesse sobre ufologia. Na Biblioteca Pública do Paraná também há registros de Victorina Sagboni por meio de jornais, sendo que neles foram publicadas entrevistas concedidas a jornalistas e historiadores, pois Victorina estava com grande destaque na época, estas informações fornecidas pela própria artista através de seus depoimentos serão utilizadas como fonte para a construção do texto biográfico.

   BIOGRAFIA

 

         Vitorina Sagboni, para os íntimos Vita, cujo nome artístico é Victorina M. Sagboni, filha de Luiz Sagboni e Helena Miskalo, paranaense, nascida na cidade de Joaquim Távora localizada no Norte Pioneiro, onde cursou o primário. A foto apresentada a seguir faz parte do acervo da família. Victorina da esquerda para a direita, é a quarta menina na fileira superior. Já a extrema direita identificada à caneta, a professora do grupo, Dona Maria.

FIGURA 1– FOTOGRAFIA. TURMA DE VICTORINA NOS ANOS INICIAIS DE ESTUDO NA CIDADE DE JOAQUIM TÁVORA, [s.d]. FONTE: ACERVO FAMÍLIA SAGBONI TEIXEIRA

          Victorina Sagboni fez o Curso Ginasial em Jacarezinho no Colégio Imaculada Conceição, e nesse colégio interno iniciou suas poesias. Victorina em entrevista concedida ao jornalista Cláudio do Estado do Paraná em 02 de dezembro de 1984 conta:

“Desde menina que desenho e escrevo. Aos 10 anos, interna em Jacarezinho – naquele tempo o colégio era muito rigoroso, tomava-se banho de camisola, aquela coisa toda -, senti – me muito presa, pois vinha de uma vida muito livre de fazenda, em Joaquim Távora. Naquela sensação de prisão, alguma coisa eclodiu em mim. Sem que eu percebesse, me tornei sonâmbula. Sonambulando, fazia poesias. Tipo assim ‘nas muitas vezes em que fui nascida/ nada escapou de pânico e receio / nas vezes que morri nunca, em protesto/ plasmei veredas para que os viriam’ e assim por diante. Coisas pesadas para 10 anos de idade, lógico! A ponto de as irmãs ficarem impressionadas. Então, volta e meia todo mundo comungava em meu benefício, e eu morria de medo de mim mesma”. (ESTADO DO PARANÁ, 1984).

           Vita afirma que continuou escrevendo compulsivamente até os 17 anos, tempo que permaneceu no colégio interno, “a pintura também acontecia mais ou menos assim. Só em 1970, quando precisei da pintura como profissão, é que me soltei” (ESTADO DO PARANÁ, 1984).

FIGURA 2 – FOTOGRAFIA DE VICTORINA SAGBONI JOVEM, [s.d]. FONTE: ACERVO FAMÍLIA SAGBONI TEIXEIRA. IMAGEM ADAPTADA PELA AUTORA.

             Muda-se para Curitiba para cursar o Normal do Instituto de Educação e dedica-se aos estudos, descobrindo grandes autores, e considerou significativo para sua vida, o contato com os professores da escola.

             No ano de 1953 casou-se com Ulisses Montanha Teixeira (figura 3 em anexo), torna-se a senhora Victorina Sagboni Teixeira e com ele passa a residir em Apucarana e posteriormente na cidade de Arapongas, onde foi diretora da Escola Normal de Grau Colegial Fernando Amaro. De seu matrimônio nasceram Haroldo, Lúcia Helena e Maurício.

  

FIGURA 3 – FOTOGRAFIA. OS NOIVOS ULISSES MONTANHA TEIXEIRA E VICTORINA SAGBONI TEIXEIRA, 1953.       FONTE: ACERVO FAMÍLIA SAGBONI TEIXEIRA. IMAGEM ADAPTADA PELA AUTORA.

           Em 1964 retorna a Curitiba e transferida do Grupo Escolar “Marques de Caravelas” inicia suas atividades junto ao professor Guido Viaro no Centro Juvenil de Artes Plásticas.

            Nesta época começa a cursar Belas Artes e vai aprimorando sua técnica com o mestre.

 

 A INFLUÊNCIA DO MESTRE E O CJAP  

             Victorina foi aluna de Guido Viaro e como discípula recebeu muitos ensinamentos do mestre que de certa forma são demonstrados em seus estudos. Quando perguntada por Adalice Araújo  se tinha alguma influência em seu trabalho, respondeu: “Como todos os alunos de Viaro, a princípio sofri muito sua influência. Usava suas cores, flores e modelos eram parecidos aos seus, se bem que não semelhantes”. (DIÁRIO DO PARANÁ, 1973) Já em entrevista ao Estado do Paraná em relação a pergunta de quem a lançou como artista, conta: 

 Acho que foi Viaro. Teve muita influência sobre mim como ser humano maravilhoso – eu o admirava muito. Cheguei a um ponto em que trabalhava muito parecido com ele. Só gostava do que ele gostava. Um dia estava pintando em uma aquarela de flores murchas, amarelas – como ele as fazia – e não o vi entrando. Por trás de mim, disse “ah, esta eu podia assinar”. Foi um elogio, mas em vez de ficar contente tive um profundo desgosto. Fiquei uma semana sem conseguir trabalhar, porque percebi que estava imitando Viaro, por admiração. Aí tratei de me refazer por dentro, planejar tudo outra vez para poder produzir algo que não estivesse ligado à maneira de fazer de Viaro. Comecei a pesquisar novas maneiras, e concluí que tudo que podia fazer já tinha sido feito. Precisava criar uma expressão nova. Pesquisando, cheguei a este trabalho que você conhece hoje, e que penso ser bastante original. (ESTADO DO PARANÁ, 1984).

 

            Assim Victorina deixa clara sua admiração pelo mestre, mas ao mesmo tempo seu trabalho estava seguindo os passos de Viaro, desta forma, realizar algo também parecido com o trabalho do professor, estava sim aprimorando a técnica, mas não desenvolvendo um processo criativo particular. Ao relatar este episódio, sobre sua experiência, a artista percebe que o próprio encaminhamento dado por Viaro aconteceu, que era provocar a busca de uma criação espontânea, não de impor condições, mas de permitir ao aluno uma variedade de possibilidades para que através delas, pudesse ter liberdade de criação, a ponto de perceber a necessidade de desenvolver a pesquisa e evoluir no seu  processo individual.

           Para quem conhece o trabalho de Viaro, ao observar as imagens a seguir é possível identificar a influência do mestre no estudo de Victorina. Acredita-se que os desenhos tenham sido realizados durante uma aula quando ela cursava Belas Artes.

IMAGEM DO TRABALHO DE VICTORINA (ANEXAR)

           Possivelmente, o insight que Victorina teve em relação a sua produção, compreendendo os objetivos do mestre através do processo de ensino-aprendizagem, fez com que fosse Victorina a substituta de Guido na direção do CJAP.Guido Viaro, com quem Victorina tinha grande relação de amizade devido às afinidades artísticas e educacionais, passa a dirigir o CJAP após a saída de Viaro, tendo como meta, dar continuidade ao trabalho do mestre. Como afirma Medeiros, (2003): 

  Quando o prof. Viaro se aposentou quem o substituiu foi a professora Victorina Sagboni a quem Viaro recomendou que desse continuidade ao trabalho, aos objetivos da escola, que não era de formar artistas, mas aproveitar a fantasia, espontaneidade, imaginação, se envolver com um meio sadio, de arte e cultura, induzindo sempre a criança a descobrir em seu interior sua personalidade integralmente. (MEDEIROS, 2003, p.13)

 

             Observa – se na foto abaixo, Victorina ao centro da imagem diante do trabalho dos alunos do Centro Juvenil em exposições realizadas ao final do semestre letivo.

FIGURA 4– VICTORINA SAGBONI EM EXPOSIÇÃO DO CJAP

 ARTISTA E POETISA            

           Como mencionado anteriormente, percebe-se nas pinturas da artista a influência do mestre Guido Viaro, destaca-se que ela apresenta a figura humana feminina como elemento central. Símbolo que atrai o olhar e se destaca perante os demais elementos da composição (em geral paisagens e flores). Constrói suas figuras a partir da aguada e as define com pequenos traços, irrequietos, variáveis, fortes e determinados, sem perder a doçura e feminilidade. Assim, com o bico de pena, as linhas construídas com nanquim delineiam os corpos de mulher em meio à natureza. São firmes, determinados, que até se assemelham a uma goiva que corta a madeira, e realiza uma marca definitiva, sendo esta não em uma superfície, mas a sua marca na história. Essa mulher que aparenta estar representada em suas pinturas, transformada em versos em suas poesias, simboliza muitas outras mulheres, transmite sua sensibilidade, seus anseios, suas crenças e seu interior. Consciente ou não, seus registros escritos, que a acompanham desde menina, foram ao longo dos anos escrevendo sua história.           

         Victorina não foi uma mulher compatível com a época que viveu, tinha seu próprio tempo, moderna perante as demais, buscou por si só definir sua vida, muitas vezes sacrificando a instituição família, afastando-se de seu marido e de seus filhos, e indo em busca da liberdade da arte e da total dedicação a ela.           

         Não era uma mulher comum, dizia ter uma sensibilidade muito aguçada, e suas poesias e trovas faziam parte de momentos de inspiração. Quase que uma necessidade incontrolável de se manifestar, sendo que ela mesma, não sabia explicar.      

          Em entrevista afirmou: “Sou católica apostólica romana e sou espírita praticante, médium. Deus é realmente a força criadora e aglutinadora de todas as formas de vida, de todas as vibrações”. (ESTADO DO PARANÁ, 1984). A Ufologia fez parte de sua vida, afirmava ter tido experiências com seres ultraterrestres que de certa forma influenciaram em seu lado artístico.  Inclusive várias de suas obras possuem como uma marca registrada três discos voadores, como Victorina afirma na mesma entrevista concedida a Cláudio(ESTADO DO PARANÁ, 1984), “Agora, o fato de aparecerem discos voadores em meus quadrinhos é uma espécie de código, uma coisa muito pessoal”. E quando questionada se tinha medo de a considerarem louca, disse: 

Claro! Sou pessoa muito racional, plenamente consciente de muitas coisas absurdas que acontecem em minha vida. Porém, elas acontecem. Por exemplo, sou levada a expor em lugares incríveis, e nunca batalhei por isto. Acredito muito na casualidade. Quando tenho que parar, paro, fico à disposição, esperando que as coisas aconteçam. (ESTADO DO PARANÁ, 1984)

           A seguir apresentam-se duas obras de Victorina, a primeira intitulada Abelha Rainha [1986?] e uma paisagem inédita sem título [200-]. Obras de períodos diferentes, ambas no extremo quadrante superior direito e esquerdo das obras apresentam três discos voadores.

 

     

        Victorina em determinado momento de sua vida artística definiu por decisão própria afastar-se da mídia, optando em parar de vender sua produção, principalmente  seus quadros, chegando também a recusar algumas exposições. Por dedução, acredita-se que seja este o motivo da ausência desta artista nas publicações recentes de arte e do ensino da arte. E portanto, a importância de apresentar aos jovens professores e pesquisadores da arte a pesquisa e o trabalho de Vita. 

         Envolvida com pessoas da sociedade devido a sua posição social e relações artísticas e literárias, Victorina era amiga das poetisas Graciette Salmon e de Helena Kolody. Inclusive devido essa estreita relação de amizade, Vita fez parte dos ilustradores do calendário de Helena Kolody intitulado Poemas e Imagens – 2004.

(foto com Helena Kolody)

        Associada do Centro Paranaense Feminino de Cultura e participante ativa dos eventos sociais e culturais como a exposição de Ida Hannemann de Campos junto com Elinir B. Mori e Helena Wong. Abaixo vemos Victorina ladeada por Ney Braga e senhora. (foto com Ney Braga)

          Grande amiga da artista Do Carmos Fortes,  frequentou a chamada Fortaleza, casa de Tenório Cavalcanti em Duque de Caxias. Filha de Tenório,  Do Carmo artista ínsita e escritora, nascida no Rio de Janeiro, fixou moradia em Curitiba.

        Os últimos anos de vida de Victorina foram tristes, melancólicos. Sofreu muito com a perda seguida de seus dois filhos e veio a falecer em 06 de junho de 2009, deixando sua filha Lucia Helena e netos.

            Sobre o falecimento de Victorina, o colunista Wilson de Araújo Bueno faz uma homenagem a artista e expressa seus sentimentos em sua coluna na Gazeta do Povo. In: < http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?id=895746>.Acesso: jan 2011.

 


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